Devocional

É pau, é pedra, é o fim do caminho

Por Marcos Alberto Santos5 min de leitura23 de agosto de 2026
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Versículo principal“Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à sua direita.” Atos 7:55
“É pau, é pedra, é o fim do caminho...” Basta o início dessa frase para nos lembrarmos de Águas de Março, uma das mais conhecidas canções brasileiras, composta por Tom Jobim em 1972 e eternizada, entre outras gravações, no célebre dueto com Elis Regina. A música é construída por uma sucessão de imagens aparentemente desconexas: pau, pedra, caminho, espinho, corte, chuva, vida e morte. Coisas boas e ruins, simples e complexas se misturam, como acontece conosco. É uma grande metáfora sobre a condição humana, seus ciclos, dificuldades e recomeços. Talvez seja por isso que tenha conquistado o mundo. A música consegue transformar em poesia aquilo que todos experimentamos: a vida é feita de ciclos. E, olhando apenas para a existência natural, terrestre e material, isso faz todo sentido. Mas Atos 7 nos apresenta alguém que enxergou além dos ciclos desta vida. Seu nome era Estêvão. Estêvão era um jovem convertido, de boa reputação, cheio do Espírito Santo e de sabedoria. Foi escolhido para servir aos irmãos e tornou-se tão apaixonado por Cristo que seu primeiro ofício registrado nas Escrituras não foi ocupar uma posição de destaque, mas servir. Entretanto, tornou-se vítima de uma grande injustiça. Como seus adversários não conseguiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava, subornaram homens para acusá-lo falsamente de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Estêvão foi levado ao Sinédrio e ali fez uma das mais extraordinárias pregações registradas em Atos. Percorreu a história de Israel mostrando como toda ela apontava para aquilo que Deus estava realizando em Cristo. Mas seus ouvintes não se arrependeram. Enfureceram-se. Rangeram os dentes. Arrastaram-no para fora da cidade. E começaram a apedrejá-lo. Foi pau. Foi pedra. Parecia o fim do caminho. Mas então aconteceu algo extraordinário. “Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus.” As pedras estavam descendo, mas os olhos de Estêvão estavam subindo. Aqui Águas de Março já não consegue explicar Estêvão. Porque Estêvão não representa apenas o ciclo da vida. Estêvão representa a perspectiva da eternidade. Quando as pedras não são o fim Somos seres criados para a eternidade, mas os “espinhos na mão” e os “cortes no pé” frequentemente embotam essa perspectiva. Olhamos para o hoje. Preocupamo-nos com o amanhã. Queremos construir uma vida segura, confortável e previsível. E, sem perceber, começamos a viver como se esta existência fosse tudo o que temos. Mas fomos feitos para a eternidade. Entender isso muda tudo. Explica a coragem de Estêvão. Mesmo acusado injustamente e cercado por homens que poderiam matá-lo, ele continuou dizendo aquilo que precisava ser dito. Os padrões daquele mundo não determinaram quem ele era, aquilo em que cria ou o que deveria falar. Estêvão sabia para onde estava indo. Por isso sabia onde pisava. E sabia o que precisava dizer. Um cristão consciente da eternidade sabe para onde vai, onde pisa e o que fala. Não é o mundo que o define, mas aquilo que Deus diz a seu respeito. É isso que significa estar cheio do Espírito Santo: conseguir continuar vendo o céu quando tudo ao nosso redor tenta nos obrigar a olhar apenas para as pedras. Pedras embaixo, céu em cima Na vida existem paus, pedras, espinhos, tombos e feridas. Existem também mudanças de estação. Há inverno e verão, períodos de abundância e escassez, encontros e despedidas. Mas nossa esperança não pode depender simplesmente da próxima estação. Se tudo o que esperamos é que depois da chuva venha o sol, que depois da crise venha a prosperidade e que depois do inverno chegue novamente o verão, nossa esperança ainda é pequena demais. Paulo foi ainda mais longe: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” 1 Coríntios 15:19 O Evangelho não é apenas a promessa de que dias melhores virão. É a certeza de que existe eternidade. Por isso Estêvão não precisava que as circunstâncias melhorassem para permanecer firme. Ele não precisava que seus acusadores mudassem de opinião. Não precisava escapar das pedras para provar que Deus estava com ele. Enquanto seus inimigos viam um homem derrotado, Estêvão via Jesus em pé à direita de Deus. Eles enxergavam o fim. Estêvão enxergava o começo. Eles viam pedras. Estêvão via a glória. Eles olhavam para baixo. Estêvão olhava para o céu. A Rocha diante das pedras Talvez as pedras também venham contra nós. Não necessariamente pedras literais, mas rejeições, injustiças, perdas, crises, enfermidades, fracassos e decepções. Entretanto, para cada pedra que nos atinge existe uma Rocha que nos sustenta. Cristo é maior do que aquilo que é lançado contra nós. É por isso que um cristão edificado sobre a Rocha pode ser ferido, mas não destruído; pode chorar, mas não perde a esperança; pode atravessar crises, mas não perde sua identidade. As pedras atingiram Estêvão, mas não conseguiram arrancar dele aquilo que realmente importava. Não tiraram sua fé. Não silenciaram seu testemunho. Não roubaram sua visão. E, principalmente, não fecharam o céu. Talvez essa seja a grande lição. As pedras que pareciam fechar o caminho de Estêvão foram justamente o cenário em que ele viu o céu aberto. A vida com Deus não é simplesmente uma crise nova a cada dia seguida pela esperança de uma estação melhor. É viver cada estação com os olhos postos na eternidade. Por isso, “é pau, é pedra, é o fim do caminho” pode até descrever determinados momentos da existência humana, mas nunca será a palavra final sobre aquele que está em Cristo. Pau passa. Pedra passa. Espinho passa. Inverno passa. Esta vida também passa. Mas Cristo permanece.

Para refletir

  1. O que mais tem definido minha visão: as circunstâncias presentes ou a realidade da eternidade em Cristo?
  2. Tenho permitido que as dificuldades desviem meu olhar da glória de Deus?
  3. O que significa, na prática, permanecer cheio do Espírito Santo em tempos de pressão?
  4. Minha esperança está firmada apenas nesta vida ou também naquilo que Deus prometeu para sempre?

Para pequenos grupos

  1. O que Atos 7:55 revela sobre a postura de Estêvão diante da perseguição?
  2. Como a esperança na eternidade transforma a maneira de enfrentar sofrimento e injustiça?
  3. Quais são as “pedras” que mais tentam prender nosso olhar ao chão?
  4. De que forma a igreja pode ajudar uns aos outros a manter os olhos no céu sem negar a realidade da dor?

Conversa

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